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Alerta INSS 16,7 milhões de idosos endividados com renda comprometida em até 80%

Uma idosa visivelmente preocupada revisa papéis e contas sobre a mesa, símbolo do endividamento.

Milhões de aposentados sofrem com débitos e abusos financeiros

O INSS alerta para uma realidade preocupante: cerca de 16,7 milhões de idosos no Brasil estão atualmente negativados, uma parcela de 20% do total de inadimplentes no país. Essa situação, que compromete até 80% da renda mensal dos aposentados, mostra um grave cenário de endividamento e a urgência de atenção para os seus pagamentos e benefícios.

Contexto do endividamento: números e histórias

Os dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelaram que o endividamento das famílias atingiu um recorde em junho, afetando 81,6% delas. Dentro deste cenário alarmante, a Serasa aponta que 83,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes, e 20% desse total, ou seja, 16,7 milhões, são idosos.

Uma pesquisa da Serasa Experian de fevereiro detalha que 79% dos idosos endividados possuem renda mensal de até R$ 2 mil. Mais grave, 79,8% têm mais de 81% de sua renda mensal comprometida com dívidas e despesas, deixando pouco ou nenhum dinheiro para o essencial.

A aposentada Rosângela, de 62 anos, expressa sua “derrota pessoal” ao ver empréstimos consignados consumirem 30% de sua renda. Ela relata que as dívidas surgiram para custear o tratamento de saúde da mãe e, depois, do pai. O aposentado Mário de Sant’ana, de 76 anos, vive a situação há mais de uma década, com R$ 500 de seu salário mínimo indo para um empréstimo consignado e R$ 600 para o aluguel, deixando-o sem recursos ao fim do mês.

Empréstimo consignado: a faca de dois gumes

Para o economista Tiago Velloso, o endividamento dos idosos é explicado por diversos fatores. A baixa renda dos aposentados, a pressão familiar para assumir dívidas em nome de filhos e netos, e a facilidade de acesso a empréstimos consignados, que possuem juros menores, são pontos cruciais.

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou cerca de 65 milhões de contratos ativos de crédito consignado em julho, um número que supera em muito as aproximadamente 25 milhões de aposentadorias concedidas.

A pesquisa Mapa do Crédito, da Serasa, mostrou que o consignado é a terceira modalidade de crédito mais utilizada no Brasil, com 30 milhões de usuários. Destes, mais de um quarto (26,9%) são idosos acima de 66 anos, totalizando 8,1 milhões de pessoas.

Apesar de ser procurado por ter juros mais baixos e prazos maiores, com objetivos como organizar a vida financeira (35%) e pagar débitos atrasados (20%), Velloso alerta: “crédito não é renda, é consumo antecipado. Se a renda não cresce, a conta chega.” Ele acrescenta que, no longo prazo, o crédito antecipa renda futura e aumenta o peso dos juros, empurrando muitas famílias para o cartão de crédito e uma “bola de neve” de dívidas.

Abuso financeiro: uma ameaça crescente

Em alguns casos, o endividamento vai além da má gestão financeira e se torna um abuso. O Ministério dos Direitos Humanos registrou 60 mil violações contra a integridade patrimonial de idosos em 2025, um aumento de 185% em relação a 2021.

A advogada do Direito Previdenciário, Rogeana França, explica que o abuso patrimonial ocorre quando um terceiro se aproveita da vulnerabilidade do idoso para obter vantagem econômica. Ela destaca que o fator emocional dificulta a percepção e denúncia da vítima, que muitas vezes teme envolver familiares.

Os abusadores frequentemente se aproximam de forma “inocente”, explorando fragilidades para convencer o idoso a contratar empréstimos ou buscar rendas extras. Instituições financeiras também podem manipular a vontade do idoso por telefone ou internet.

As punições para esses atos podem ser cíveis, como ressarcimento e indenizações, ou criminais, com tipificações no Estatuto do Idoso, estelionato, apropriação indébita ou extorsão. Além disso, a Lei do Superendividamento, de 2021, permite a renegociação de dívidas para garantir o “mínimo existencial”, protegendo a renda essencial para moradia e alimentação.

Para combater essa “violência silenciosa”, a denúncia é fundamental. Os canais disponíveis incluem o Disque Idoso (no Rio de Janeiro, 165), o Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos, a Polícia Militar, e órgãos de proteção ao consumidor como o Consumidor.gov.br e os Procons, em casos de instituições financeiras.

Como sair do vermelho: dicas e apoio

A especialista em educação financeira do Serasa, Aline Vieira, aconselha que o primeiro passo é organizar os custos, mapeando todas as dívidas e a movimentação de entrada e saída de dinheiro. A renegociação de débitos e a busca por ofertas e descontos são estratégias eficazes.

Aline ressalta que um novo empréstimo para quitar dívidas anteriores pode ser uma solução, mas apenas se os juros forem menores e o valor total a ser pago for cuidadosamente analisado. “É muito importante analisar bem a taxa, o tipo de empréstimo que ele vai tomar crédito e o valor final que vai ser pago”, pontua.

Se o idoso for contratar um empréstimo para ajudar terceiros, a especialista alerta que a parcela não pode comprometer seus gastos essenciais e que é preciso estar preparado caso a pessoa ajudada não cumpra o compromisso.

O INSS e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmam que promovem ações de comunicação e educação financeira para prevenir golpes e proteger consumidores vulneráveis, incluindo a Autorregulação do Consignado, que visa aprimorar o atendimento e combater o assédio comercial.

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