Plataformas digitais: o novo motor para a sua prosperidade
A tecnologia está revolucionando o acesso ao dinheiro e a geração de renda no Brasil, injetando R$ 4 milhões em novos negócios de impacto e alterando a forma como milhares de pessoas prosperam. Longe de ser apenas um canal de doações, a inovação digital agora estrutura modelos de negócio que atraem capital privado com retorno financeiro, transformando a inclusão econômica em uma realidade mais acessível para muitos.
Essa mudança profunda foi destacada por Diego Barreto, CEO do iFood, e David Hertz, cofundador da Gastromotiva, em entrevista ao programa Impacto S.A., da BM&C News. Eles explicam como empresas de tecnologia podem reduzir barreiras de entrada para empreendedores e conectar o setor privado ao terceiro setor de maneira eficaz.
Como a tecnologia amplia o alcance do impacto social
Para Diego Barreto, a prosperidade brasileira é travada por uma mentalidade de “sobrevivência” e pela ausência de um projeto de país. A tecnologia preenche essa lacuna oferecendo escala, flexibilidade e acesso. Com um smartphone e conectividade, indivíduos em qualquer lugar podem gerar renda e acessar mercados antes inimagináveis.
- Geração de renda: Entregadores encontram no iFood uma barreira de entrada muito menor que no emprego formal.
- Crescimento de pequenos negócios: Restaurantes de bairro e empreendedores individuais expandem sua atuação.
- Ecossistema econômico: A tecnologia cria um ambiente para alimentação, crédito e serviços associados.
David Hertz complementa, mostrando como a gastronomia social se beneficia da tecnologia. Iniciativas como a Gastromotiva usam ferramentas digitais para organizar redes de cozinheiras, coordenar capacitações e otimizar a conexão entre oferta e demanda de refeições.
Histórias concretas que mudam o engajamento
Barreto aponta que o engajamento em grandes plataformas é impulsionado por histórias reais e o impacto prático na vida das pessoas. Vendedores que crescem e contratam mais funcionários ou entregadores que acessam corridas rapidamente e reduzem a ansiedade financeira são exemplos claros.
Ele cita o caso de Camila, que vendia pastéis na feira, usou o iFood para identificar demanda contínua, acessou crédito da empresa, abriu uma pastelaria e expandiu para múltiplas unidades. Para os executivos, entender esse ciclo completo transforma os colaboradores em “missionários” com propósito e remuneração.
De filantropia a negócios de impacto escaláveis
Um dos pontos centrais é a transição de um modelo de filantropia para negócios de impacto, que atraem capital e geram retorno financeiro junto com resultados sociais. Barreto mencionou sua conversa com Eduardo Lyra, da Gerando Falcões, que buscava “sair da filantropia” para escalar o impacto.
O projeto Favela 3D ilustra esse novo caminho:
- Definição da intervenção comunitária.
- Mapeamento de empregos disponíveis no entorno.
- Capacitação de moradores para as vagas.
- Intervenções de infraestrutura para inserção produtiva.
Nesse modelo, os recursos são tratados como investimento, não doação. Famílias beneficiadas devolvem o capital por meio de microcrédito comunitário, e investidores aceitam retornos mais baixos em nome do impacto. Barreto afirma que este modelo já captou R$ 4 milhões para financiar a primeira favela nesse formato, com potencial de escalar para milhares de comunidades.
“Propósito é necessário, mas não substitui contabilidade, modelagem de fluxo de caixa e governança”, afirma Barreto, resumindo a disciplina necessária para empreendedores sociais.
O papel do dono da empresa no impacto social
A perenidade das políticas de impacto depende do acionista controlador ou fundador, não apenas da diretoria executiva. Barreto explica que quando a agenda social nasce no nível do dono, ela tem mais chances de sobreviver a mudanças de gestão e se torna parte da tese de valor do negócio, explícita em acordos e métricas de longo prazo.
Plataformas de delivery: inclusão e tensões
Apesar da inclusão, plataformas de entrega geram dilemas. Barreto reconhece a cobrança por um “modelo de trabalho mais justo” e defende que a flexibilidade permite a pessoas desempregadas gerar renda em dias. Mulheres entregadoras, por exemplo, valorizam a autonomia de horário para cuidar dos filhos, algo que empregos formais rígidos não oferecem.
Ele admite que a discussão sobre justiça no trabalho de plataformas está em curso e que as empresas devem dialogar com reguladores e a sociedade para ajustar os modelos à medida que novas referências sociais se consolidam.
O que ainda não muda com tecnologia e impacto
Mesmo com avanços, a tecnologia não resolve sozinha alguns entraves:
- A mudança de mentalidade da população é lenta, exigindo um “trabalho de formiguinha” para que as pessoas busquem ir além da “síndrome de vira-lata”.
- A conversão da elite econômica para um projeto de país é um processo de décadas, que requer construção de confiança.
- Muitas iniciativas do terceiro setor ainda carecem de estruturação de negócio, com propósito forte, mas modelo financeiro frágil.
Para empresas, ONGs e fundos que desejam agir, Barreto sugere perguntas objetivas:
- Qual problema econômico concreto estou resolvendo (geração de renda, crédito, formação)?
- Que modelo de receita sustenta isso (venda de serviços, microcrédito, contratos)?
- Quem é o dono da agenda de impacto (acionistas, conselho ou diretoria)?
- Quais indicadores acompanho ao longo dos anos (renda média, inadimplência, inserção no mercado)?
Com essas respostas, o passo seguinte é testar pilotos pequenos e estruturados, com metas claras de resultado econômico e social. Medir, ajustar e escalar são passos cruciais para construir um impacto duradouro e com disciplina de mercado.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
