Nove em cada dez brasileiros desaprovam alterações nas regras do saque-aniversário do FGTS
Uma pesquisa recente da AtlasIntel, encomendada pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e pela Zetta, aponta uma forte rejeição às novas regras do saque-aniversário do FGTS por parte daqueles que já utilizaram a modalidade. Dos brasileiros que já fizeram antecipação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), nove em cada dez são contrários ao fim de certas práticas antes permitidas.
O levantamento, divulgado em 26 de fevereiro, também indica que cerca de 70% da população que conhece a modalidade considera prejudiciais aos trabalhadores as medidas impostas pelo Conselho Curador do FGTS em outubro de 2025. A partir de novembro de 2025, a antecipação do saque-aniversário sofrerá restrições significativas.
Antes da entrada em vigor das novas determinações, não havia limite anual para operações de antecipação por trabalhador, nem um prazo mínimo entre a adesão à modalidade e a contratação do empréstimo. Tampouco existia valor mínimo por operação, permitindo que um trabalhador realizasse diversas antecipações. A média registrada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) era de 7,9 saques por pessoa, a maioria de aproximadamente R$ 100.
Entre 2020 e 2025, o MTE informou que essas operações somaram R$ 236 bilhões. O FGTS conta com 42 milhões de trabalhadores ativos, sendo que 21,5 milhões aderiram à modalidade. Incluindo trabalhadores inativos, o total chega a 29 milhões, com sete em cada dez tendo acessado algum tipo de crédito.
O que muda no saque-aniversário do FGTS a partir de novembro de 2025
Com as alterações promovidas pelo MTE, a antecipação do saque-aniversário do FGTS passa a ter limite de operações anuais por trabalhador. Além disso, estabeleceu-se um prazo mínimo para a contratação do empréstimo após a adesão à modalidade e um valor mínimo por operação. O MTE estimou que essas mudanças poderiam evitar a movimentação de R$ 84,6 bilhões para instituições financeiras e repasse aos trabalhadores até 2030.
O ministro Luiz Marinho, à época da implementação, justificou a medida pela busca de redução do uso recorrente da antecipação. Contudo, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) alertou que parte das mudanças pode restringir o acesso ao crédito. Eduardo Lopes, presidente da Zetta, associação que representa bancos digitais e fintechs, destacou:
A antecipação do saque-aniversário cumpre um papel essencial na vida financeira dos brasileiros, especialmente em situações urgentes, e as restrições implementadas são vistas como medidas que prejudicam os trabalhadores ao limitar o acesso a uma alternativa importante de crédito.
Principais destinos do saque-aniversário e impacto das restrições
Entre todos os trabalhadores cadastrados no saque-aniversário, a quitação de dívidas é o principal destino dos recursos, utilizada por 59% para cobrir contas atrasadas, cartão de crédito e empréstimos. Despesas com saúde ou medicamentos (19,9%) e consumo pessoal (11,1%) aparecem em seguida. Para Alex Gonçalves, diretor de crédito consignado da ABBC, os dados demonstram um desalinhamento:
Os dados mostram que as restrições não estão alinhadas à realidade financeira de uma parcela significativa da população brasileira. A limitação ao acesso à antecipação reduz a disponibilidade de uma das modalidades de crédito com menor custo, levando o trabalhador a alternativas com taxas de juros significativamente mais elevadas. A autonomia do cidadão sobre a utilização de seus próprios recursos deve ser preservada, levando-se em consideração que as principais destinações são necessidades essenciais, como despesas com saúde ou a regularização de obrigações financeiras urgentes.
A pesquisa também revelou que 70% dos cadastrados no saque-aniversário já realizaram a antecipação pelo menos uma vez, indicando um uso recorrente. Desses, 38,6% anteciparam de uma a duas vezes, e 9,3% o fizeram mais de dez vezes.
Em relação às novas regras, 65,7% dos entrevistados que conhecem a modalidade avaliam que as mudanças prejudicam o trabalhador, enquanto 34,3% as consideram benéficas. A ideia de que as alterações estimulam o planejamento financeiro foi rejeitada por 79,7% dos que já anteciparam o saque. A exigência de um prazo mínimo de 90 dias para contratar a antecipação também foi discordada pela maioria (51,3%).