O impacto direto nas finanças e a escalada das dívidas no país
A situação do dinheiro no bolso do brasileiro enfrenta um cenário desafiador. A inadimplência média das operações de crédito total no país atingiu 4,7% em maio, um novo recorde histórico desde 2011. Essa escalada afeta diretamente milhões de pessoas físicas e jurídicas, que veem seus pagamentos e orçamentos comprometidos pelos juros elevados e a necessidade de recorrer a linhas de crédito caras.
Os dados do Banco Central (BC) revelam um agravamento generalizado. Nas operações de crédito livre, as dívidas com atraso superior a 90 dias saltaram de 6,1% para 6,2%. Entre as pessoas físicas, o calote nessa modalidade cresceu de 7,4% para 7,6%. Para as empresas, o índice subiu de 4% para 4,1%. Até mesmo no crédito direcionado, com juros mais baixos, a inadimplência aumentou de 2,7% para 2,8%, mostrando a amplitude do problema.
Desenrola renegocia R$ 15 bilhões, mas alerta persiste
Diante do cenário, o governo relançou em maio o programa Desenrola, que já conseguiu renegociar cerca de R$ 15 bilhões em dívidas. Contudo, a experiência da primeira edição, em 2023, mostrou um efeito de curto prazo, com muitos endividados voltando à mesma situação meses depois. O problema reside no uso do crédito por parte da população não para adquirir bens, mas como um complemento essencial de renda.
Mesmo com o desemprego em níveis baixos, linhas de crédito como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal consomem uma fatia cada vez maior dos rendimentos. O governo, além de renegociar débitos de estudantes, agricultores familiares e micro e pequenas empresas, também incentivou o endividamento ao lançar linhas para a aquisição de veículos e máquinas. A etapa mais recente do Desenrola chegou a contemplar trabalhadores formais e informais, e até quem estava em dia ou com atrasos menores que 90 dias.
Empresas e agronegócio sob pressão dos juros
O cenário não é diferente para o setor empresarial. As 40 maiores varejistas do país, por exemplo, tiveram 45% de sua geração de caixa consumida pelo pagamento de juros no ano passado. Isso explica o aumento significativo de empresas tradicionais buscando reestruturações e recuperações judiciais ou extrajudiciais.
Até o agronegócio, historicamente beneficiado por taxas mais atrativas do Plano Safra, registra alta na inadimplência. O setor enfrenta a elevação dos custos de insumos vitais como diesel, defensivos e fertilizantes, além de perdas causadas por eventos climáticos adversos, especialmente no Rio Grande do Sul.
A raiz do problema: juros altos e déficit público
É difícil prever uma reversão rápida desse quadro. As ajudas pontuais, como o Desenrola, podem oferecer um alívio temporário, mas não resolvem questões estruturais. A manutenção de taxas de juros elevadas por um longo período é uma das principais causas do endividamento geral.
O déficit no Orçamento eleva a dívida pública e, consequentemente, o custo para financiá-la, mantendo os juros em patamares acima de dois dígitos. É responsabilidade do Executivo criar condições para a redução dos juros, em vez de apenas culpar o Banco Central.
A perspectiva para o curto prazo é desafiadora, e a resolução exige uma abordagem focada nas causas estruturais que mantêm o ciclo de endividamento.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
