O custo do dinheiro e o alerta sobre o superendividamento no Brasil
Com 83,5 milhões de brasileiros endividados, o maior registro histórico do Serasa, a forma como o acesso a empréstimos e a liberação de dinheiro ocorre no país se tornou um alerta. As fintechs revolucionaram o crédito, mas esse cenário traz consequências diretas para a vida financeira de milhões de pessoas agora. O que muda para o seu bolso com essa nova realidade e o papel dessas empresas no aumento das dívidas?
O sistema financeiro nacional vive um paradoxo notável: enquanto o número de empresas de tecnologia financeira (fintechs) disparou para cerca de 1,6 mil, concedendo R$ 53,8 bilhões em empréstimos em 2025 – um aumento de 51% em um ano –, o Brasil também registra seu recorde de endividados. Esse boom do crédito digital acontece em um ambiente de juros básicos de 14,25% ao ano, entre os mais altos do mundo.
Fintechs e o dilema do crédito
A expansão do crédito por fintechs foi impressionante, crescendo mais de 330 vezes desde 2016, conforme levantamento da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD). No entanto, Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban, argumenta que o problema não é a quantidade de crédito, mas a sua qualidade. A inclusão financeira trouxe milhões de novos tomadores, muitos sem educação financeira adequada, e algumas instituições concederam empréstimos sem avaliação precisa da capacidade de pagamento.
A relação entre crédito e PIB no Brasil, atualmente em 55,9%, ainda é considerada baixa se comparada a países com renda per capita semelhante, indicando espaço para mais expansão. O desafio, portanto, não é ampliar a oferta, mas qualificar a concessão.
Inadimplência em alta e a resposta do setor
A inadimplência das carteiras de fintechs atingiu 10,1% em 2025, superando os 3,5% do sistema bancário tradicional. Essa diferença reflete, em parte, o perfil dos clientes atendidos: as fintechs alcançam 95 milhões de pessoas físicas e 72.249 empresas, muitos deles historicamente excluídos dos grandes bancos.
A presença das fintechs nas movimentações de inclusão e exclusão de dívidas no Serasa cresceu 129% entre 2019 e 2022, alcançando 3,6% dos registros. Ricardo Thomaziello, diretor de Analytics da Serasa Experian, explica que isso se deve ao crescimento do setor e aos processos digitais que agilizam os registros de inadimplência.
Para tentar conter o aumento das dívidas não pagas, as fintechs estão tornando o crédito mais conservador. A oferta de crédito sem garantia, por exemplo, caiu de 60% em 2019 para 14% em 2025. Modalidades com menor risco, como o consignado para trabalhadores do setor privado, aumentaram de 40% para 47% das operações. Willer Marcondes, sócio para Serviços Financeiros na PwC Brasil, destaca:
Esse modelo ganha espaço porque permite controlar melhor o risco e administrar a inadimplência.
Por que a concorrência não baixou os juros?
Apesar do aumento da concorrência com a proliferação de fintechs, os juros do crédito no Brasil permaneceram elevados e, em algumas modalidades, até subiram. Embora a competição tenha eliminado tarifas bancárias comuns, como anuidades e taxas de manutenção, o custo do crédito não seguiu a mesma tendência.
Dados apresentados por Troster mostram um aumento expressivo em diversas taxas de juros em dez anos: conta garantida (de 49,1% para 61,2%), cheque especial para pessoa jurídica (de 273,9% para 355,7%), e cartão de crédito parcelado para pessoa física (de 136,2% para 189,0%). Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados, resume:
Isso aconteceu em serviços bancários, mas não no crédito. O principal efeito das fintechs foi ampliar o acesso ao sistema financeiro.
A explicação para isso reside na qualidade das carteiras de crédito. O aumento do risco de inadimplência, muitas vezes causado pela facilidade de contratar múltiplos empréstimos sem avaliação abrangente, é incorporado ao preço das operações. Juros elevados, por sua vez, podem agravar ainda mais a inadimplência, criando um ciclo vicioso.
Outro fator é o custo de captação. Enquanto grandes bancos financiam-se com depósitos e poupança de baixo custo, muitas fintechs dependem do mercado de capitais, como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e debêntures, que exigem maior remuneração aos investidores. Marcelo Buosi, COO da QI Tech, explica:
O custo de funding talvez seja o componente mais subestimado dessa disputa. Um banco capta recursos no varejo por meio de depósitos e poupança, que rendem abaixo do CDI. Já uma fintech normalmente depende de FIDCs ou debêntures, pagando CDI mais um prêmio.
Fintechs impulsionam crédito para micro e pequenas empresas
O Brasil se tornou um polo de fintechs devido a um sistema bancário já digitalizado, a chegada do Pix e Open Finance, e a uma população acostumada a transações digitais. Essa combinação rara criou um mercado maduro para as inovações.
As micro e pequenas empresas foram um dos segmentos mais beneficiados. Fintechs utilizam dados alternativos, como fluxo de caixa e histórico de pagamentos, para criar modelos de avaliação de risco mais precisos, preenchendo uma lacuna histórica de informações. A base de clientes pessoa jurídica dessas empresas cresceu 30%, com 91% sendo microempresas. No Mercado Pago, 67% dos pequenos empreendedores obtiveram seu primeiro empréstimo.
Daniel Davanço, diretor sênior de PMEs do Mercado Pago, reforça:
O Mercado Pago tem ampliado o acesso ao crédito para empreendedores que ainda enfrentam barreiras nos modelos tradicionais de avaliação, seja pela baixa formalização, por um histórico financeiro em construção ou pela ausência de garantias convencionais.
A tecnologia também agiliza processos. Na QI Tech, o cadastro de empresas, que antes levava dias, é concluído em cerca de dez minutos, reduzindo custos e acelerando a concessão de crédito.
O próximo teste das fintechs: a consolidação regulatória
Após uma década de abertura de mercado, o Banco Central inicia um ciclo de consolidação, endurecendo as regras para fintechs. Exigências de capital mínimo foram significativamente elevadas, com Sociedades de Crédito Direto (SCDs) passando de R$ 1 milhão para R$ 9,6 milhões, e instituições de pagamento de R$ 2 milhões para cerca de R$ 11 milhões.
Cerca de 39% das instituições autorizadas, incluindo 81% das SCDs, precisarão reforçar seu capital até 2028. Essa revisão regulatória ocorre após o Banco Central identificar que o crescimento de algumas fintechs, financiado por FIDCs, não era acompanhado por capital suficiente, e também em meio a investigações sobre lavagem de dinheiro e fragilidades de governança.
Amaral conclui:
Primeiro, o regulador estimulou a entrada de novos participantes para aumentar a concorrência. Agora, busca fortalecer as exigências para garantir que essas empresas tenham estrutura financeira compatível com o risco que assumem.
O setor entra em uma nova fase, onde o foco se desloca da rápida expansão para a solidez financeira, controles internos robustos e modelos de negócio sustentáveis a longo prazo.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
