Milhares de construtoras e investidores são diretamente afetados pela mudança
O acesso a dinheiro e crédito para o setor de construção, que movimenta R$ 484,2 bilhões e emprega milhões, está cada vez mais difícil. Bancos tradicionais endureceram suas regras, deixando milhares de empresas de médio porte sem financiamento essencial para seus projetos, alertando para atrasos em obras e menor geração de empregos em todo o país.
A situação atual levanta um alerta sobre a capacidade do mercado imobiliário brasileiro de manter seu ritmo de crescimento. Um levantamento da Pilar Capital, divulgado em primeira mão pela EXAME, mostra que esta restrição bancária já deixa cerca de R$ 400 bilhões em potencial sem crédito.
O paradoxo do setor da construção
Apesar de movimentar um volume financeiro expressivo e empregar 2,5 milhões de pessoas, o setor da construção no Brasil é altamente pulverizado. Dados do IBGE de maio de 2025 revelaram 165,8 mil empresas, com uma média de apenas 15 funcionários por companhia. Menos de 1% dessas empresas são consideradas de grande porte, enquanto mais de 95% são micro, pequenas ou médias.
Grandes bancos priorizam companhias de porte elevado, com governança robusta e histórico comprovado. Essa preferência cria um fenômeno conhecido como “crowdout”, onde empresas médias, mesmo com projetos viáveis e demanda, ficam à margem do financiamento tradicional.
“Se você pegar financiamento à produção, houve períodos de quase 50% de queda. Bancos tornaram-se mais rígidos ou pararam de operar o segmento por falta de funding ou mudança na política de crédito”, explica Cassio Viana, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital.
Alternativa para projetos de R$ 15 milhões a R$ 150 milhões
Essa lacuna de crédito abriu espaço para o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e outras estruturas de crédito privado. André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, destaca a importância dessas alternativas.
A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) registrou que os FIDCs tiveram uma captação líquida de R$ 57,6 bilhões em 2025, com um aumento de 92,5% no número de contas de investidores, reforçando seu papel como financiadores da economia real.
Esses produtos funcionam como uma ponte crucial entre investidores e construtoras médias. Eles financiam desde a aquisição de terrenos até a entrega final das unidades, suportando projetos que variam de R$ 15 milhões a R$ 70 milhões, podendo chegar a R$ 150 milhões. Assim, permitem que empresas que não se encaixam nos critérios bancários tradicionais continuem lançando e executando seus empreendimentos.
“Existe uma faixa importante de construtoras médias que não busca crédito por falta de adequação ao modelo bancário tradicional. São empresas com obra bem localizada, histórico regional e demanda comprovada, mas que não atingem os critérios de tamanho ou garantias exigidas pelos grandes bancos”, afirma Caruso.
A restrição no crédito bancário tradicional tem um efeito cascata que vai além do incorporador. Ela impacta diretamente o andamento das obras e a geração de empregos. Destravar o financiamento para construtoras médias é fundamental para impulsionar a economia real do país.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
