Juros altos congelam o desenvolvimento e seu futuro no Brasil
O dinheiro está mais caro no Brasil, e isso afeta diretamente a indústria e, por consequência, o bolso de todos. Com juros reais atingindo 9,67% – entre os maiores do mundo – o crédito se tornou proibitivo, sufocando a capacidade de inovação e a competitividade do setor produtivo nacional. Essa realidade atual representa um freio nos investimentos e uma perda estrutural para a economia, com reflexos no acesso a produtos e na geração de empregos.
Indústria brasileira perde fôlego e dinheiro
A situação é crítica para a indústria de transformação. Dados da CNI revelam uma queda drástica na participação do setor no PIB brasileiro, despencando de 35,9% em 1985 para meros 10,8% em 2024. Isso coloca o Brasil na 15ª posição global, com apenas 1,28% da produção mundial, muito abaixo do pico de 2,77% registrado em 1995.
Para o economista Beny Fard, da B8 Partners, a rentabilidade das fábricas, com Ebitda em torno de 15%, mal supera o rendimento de aplicações financeiras. Essa proximidade desestimula o reinvestimento e leva empresas a recorrerem cada vez mais a recuperações judiciais. Além disso, os bancos passaram a exigir garantias reais de até 110% do valor dos empréstimos, eliminando o aval baseado em relacionamento e empurrando as indústrias para o uso de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) para antecipar recebíveis, o que compromete o caixa futuro.
Consumo e investimentos paralisados
A política monetária restritiva, impulsionada pela taxa Selic em 14,25% ao ano, impacta duplamente a economia. Stefano Pacini, do FGV Ibre, explica que ela desestimula a compra de bens duráveis pelos consumidores e paralisa os produtores na renovação de seus maquinários. Bens duráveis, semiduráveis e não duráveis são os mais afetados, resultando no acúmulo de estoques.
O investimento produtivo é um dos maiores prejudicados. Embora a indústria de transformação seja responsável por 62,4% do investimento empresarial em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no Brasil – com destaque para veículos automotores (18%) e química (16,5%) – a falta de recursos compromete a inovação tecnológica. A taxa de investimento total do país é de apenas 16,8% do PIB, muito aquém dos 30% observados em países como China e Índia, impedindo o desenvolvimento de novas pesquisas.
Juro alto: um imposto invisível sobre a inovação
O educador e empresário Tiago Zanolla compara o custo elevado dos juros a um “imposto invisível” sobre a inovação. O Brasil gasta cerca de R$ 1 trilhão anualmente, o equivalente a 8% do PIB, apenas no pagamento de juros da dívida pública. Enquanto isso, o investimento em pesquisa científica não passa de 1,19% do PIB.
Esse desequilíbrio tem consequências graves. No ranking Global 2000 de 2026, 87% das universidades brasileiras perderam posições, gerando um ciclo vicioso de cortes orçamentários e a temida “fuga de cérebros” para países com melhores condições. O enfraquecimento do parque fabril também afeta diretamente a produção de conhecimento aplicado, reduzindo a capacidade do Brasil de inovar e perpetuando a dependência tecnológica em um cenário de concorrência global por talentos.
Olhar para fora: a saída para a indústria
Diante desse cenário desafiador, especialistas apontam para o mercado externo como uma possível solução. A indústria de transformação poderia se beneficiar de movimentos globais como o “nearshoring” e as atuais tensões geopolíticas. Beny Fard destaca que o Brasil, por ser uma democracia estável e abundante em recursos naturais, possui potencial para suprir a demanda mundial por itens de maior valor agregado.
Essa estratégia permitiria diminuir a dependência do mercado interno, atualmente asfixiado pelos juros. Stefano Pacini e Beny Fard concordam que a desindustrialização é um processo antigo, agravado por gargalos logísticos, energéticos e de produtividade, mas que a “janela de oportunidade” no comércio exterior pode ser crucial para reverter parte da perda de competitividade e impulsionar a recuperação.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
