Descontos de até R$ 12 mil e empregos em risco no setor
Uma crise sem precedentes atinge o mercado de seminovos, com dinheiro liberado através de descontos de até R$ 12 mil e pátios cheios de veículos parados. Milhares de vendedores e lojistas enfrentam a pior década, impactando o acesso a carros e a estabilidade de empregos em todo o Brasil. Os juros altos e a chegada de modelos elétricos chineses baratos mudaram as regras do jogo, afetando principalmente os automóveis com valor superior a R$ 100 mil.
A crise que afeta os pátios e muda as regras do jogo
Vendedores de carros seminovos estão vivenciando um dos momentos mais difíceis dos últimos dez anos. O cenário atual é de pátios lotados, movimento fraco nas lojas e grande dificuldade para fechar negócios, especialmente para veículos acima de R$ 100 mil. A concorrência acirrada e a desvalorização dos usados são fatores que contribuem para a estagnação.
- Carros acima de R$ 80 mil permanecem parados nos pátios, enquanto os modelos mais acessíveis ainda encontram compradores.
- A queda nas vendas é drástica: vendedores que antes comercializavam sete carros em um sábado, agora levam um mês para atingir essa mesma quantidade.
- Lojistas estão oferecendo descontos significativos, chegando a R$ 12 mil, na tentativa de girar o estoque, mas muitas vezes sem sucesso.
- A crise já provoca cortes de empregos, com lojas demitindo funcionários e reduzindo equipes de vendas.
“Nunca vi tanta concorrência. Os carros elétricos mudaram o mercado. O momento das vendas está difícil porque os carros elétricos chegam com preços muito baixos. Os SUVs são os mais procurados, mas custam mais de R$ 100 mil, o que dificulta a venda.” — Heloísa Rodrigues, consultora de vendas.
Impacto direto nas lojas e nos preços
O efeito dominó da crise é visível nas lojas. Os veículos permanecem mais tempo estocados, o giro é lento e a prática de oferecer descontos se tornou rotina. Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de carros funciona em cadeia: a redução nos preços dos carros zero por parte das montadoras impacta diretamente os usados.
“Com a proposta de valor dos carros chineses, que são novos, com muita tecnologia e garantia longa, todo o mercado se reposicionou para baixo. Isso fez os carros usados desvalorizarem mais do que antes.” — Heloísa Rodrigues.
Thyago Damzio, vendedor há 11 anos, descreve a mudança como “enorme”. O que antes era uma venda de sete ou oito carros em um único sábado, hoje é uma meta de um mês inteiro. Ele relata ter um Volkswagen T-Cross 2026, com apenas 600 quilômetros rodados, parado no pátio há dois meses. Para ele, apenas carros até R$ 80 mil mantêm um bom ritmo de vendas.
Marcelo Pinheiro, proprietário da Lumar Automóveis, também sente o peso da crise. Para evitar que os carros fiquem encalhados, ele aplica descontos de até R$ 12 mil. Exemplos incluem um Corolla Cross, um Nissan Kicks e um HR-V, parados há cerca de quatro meses. A disposição de aceitar propostas abaixo do valor anunciado ilustra a gravidade da situação.
Em contraste, os carros mais baratos ainda encontram compradores. Sérgio Machado, servidor público, precisou de um seminovo acessível após ter seu carro roubado. Ele encontrou um modelo que cabia no orçamento, ressaltando que um carro zero estava fora de sua realidade.
Demissões e a luta por comissões
A queda nas vendas já se reflete na empregabilidade do setor. Durante uma visita à Intendente Magalhães, no Rio de Janeiro, foram observadas lojas com poucos vendedores e até estabelecimentos fechados. Ivan Sousa, gerente de uma dessas lojas, confirma que sua empresa já precisou demitir funcionários. A dificuldade em vender afeta diretamente a renda dos profissionais.
“Não tem como manter uma estrutura se os carros não vendem. O vendedor precisa vender pelo menos dois carros por mês para ter uma renda mínima, e muitas vezes nem isso está conseguindo.” — Ivan Sousa, gerente.
Thyago Damzio também destaca que as comissões dos vendedores foram duramente atingidas. Ele, que já chegou a ganhar R$ 14 mil por mês em comissões, hoje recebe menos da metade desse valor.
Medida do governo busca aliviar o setor
Em um movimento para tentar aquecer o mercado, o governo federal ampliou as regras de financiamento do programa Move Brasil para motoristas de aplicativo e taxistas. Agora, além de carros novos, o programa permite o financiamento de seminovos de até R$ 150 mil, desde que fabricados a partir de 2024. Essa inclusão visa facilitar o crédito para consumidores que buscam veículos de menor valor, tornando as parcelas mais acessíveis e o comprometimento orçamentário menor.
“Quando você inclui o seminovo, que é mais barato, fica mais fácil conseguir o crédito. Com um carro de menor valor, a renda do consumidor consegue pagar uma parcela mais baixa, e o comprometimento do orçamento também é menor.” — J.R. Caporal, CEO da Auto Avaliar e Megadealer.
As condições específicas do financiamento, incluídas em medida provisória, são:
- Valor máximo: Seminovos de até R$ 150 mil.
- Ano de fabricação: A partir de 2024.
- Tipos de veículo: Carros elétricos e híbridos flex seminovos.
- Juros para mulheres: 0,91% ao mês (11,5% ao ano).
- Juros para homens: 0,99% ao mês (12,6% ao ano).
- Prazo de pagamento: Até 72 meses (seis anos).
- Carência: Até seis meses para iniciar o pagamento das parcelas.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
