Conseguir crédito para pequenas e médias empresas (PMEs) pode ser um movimento estratégico para expandir operações ou equilibrar o caixa. No entanto, buscar recursos sem um planejamento financeiro sólido pode transformar uma solução em um risco para a sobrevivência do negócio.
Antes de procurar um banco, o empreendedor deve responder a uma pergunta fundamental: a empresa possui capacidade real de assumir uma nova dívida? A análise precisa ir além da necessidade imediata de caixa e focar na viabilidade de pagamento a longo prazo.
A análise necessária antes de contratar
Especialistas reforçam que a tomada de crédito sem entender a capacidade de pagamento pode agravar problemas operacionais. Segundo Paulo Feldmann, professor da FEA-USP e da FIA Business School, é indispensável projetar receitas e despesas com um horizonte de, pelo menos, dois a três anos para garantir que haverá sobra para honrar as parcelas.
Gabriel Motomura, do BTG Pactual Empresas, destaca que o empréstimo deve financiar uma necessidade clara, como capital de giro ou oportunidades de expansão. Se a empresa apresenta um déficit estrutural, é preciso corrigir a operação antes de buscar crédito, evitando o endividamento excessivo.
Se a empresa tem um déficit estrutural, é preciso corrigir o negócio antes de buscar essa caixa por meio do crédito e aumentar o endividamento.
O custo do crédito em tempos de juros altos
O cenário atual exige cautela, especialmente com a taxa Selic em 14,00% ao ano, conforme decisões recentes do Comitê de Política Monetária (Copom). Para as PMEs, os juros elevados impactam diretamente a disponibilidade de capital.
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, alerta que a redução da Selic não chega de forma imediata aos juros cobrados das empresas. Bancos levam em conta fatores como:
- Inadimplência da empresa
- Histórico financeiro
- Garantias oferecidas
- Situação financeira atual
É fundamental observar o Custo Efetivo Total (CET), que inclui juros, IOF, tarifas e seguros, além de condições extras como a manutenção da folha de pagamento na instituição credora.
Organize a casa para garantir o crédito
O acesso ao crédito começa muito antes da necessidade urgente. Manter o relacionamento bancário, concentrar recebimentos e pagamentos, e compartilhar dados via Open Finance aumenta a visibilidade do banco sobre o perfil da empresa.
Cláudio Santos, da Galeazzi, sugere a criação de uma “pasta de crédito” contendo:
- Documentos societários (contrato social, CNPJ)
- Documentação dos sócios avalistas
- Balanço patrimonial, DRE e balancetes recentes
- Fluxo de caixa projetado para 12 meses
- Relação detalhada das dívidas existentes
O fluxo de caixa projetado é um dos documentos mais valorizados pelos analistas, pois demonstra clareza sobre o uso do capital. Além das linhas bancárias tradicionais, alternativas como cooperativas de crédito, antecipação de recebíveis e programas de garantia, como o Pronampe, o FGI e o FGO — integrantes do programa Acredita — devem ser avaliadas conforme a realidade e a necessidade da empresa.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
