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Como 3 bancos ocultaram R$ 2,1 bilhões em dívidas da Americanas e enganaram o mercado

Documentos financeiros sob investigação, simbolizando dívidas ocultas e fraudes corporativas.

Descoberta da PF revela operações bilionárias que disfarçaram o rombo

A Polícia Federal (PF) revelou o envolvimento de grandes instituições financeiras como BTG Pactual, Daycoval e Banco do Brasil em operações que teriam ajudado a Americanas a ocultar mais de R$ 2,1 bilhões em dívidas. Essa descoberta, parte da Operação Disclosure, aponta como o rombo bilionário foi disfarçado, impactando a credibilidade do mercado financeiro e a percepção de saúde das empresas.

As informações vêm de um despacho sigiloso da juíza Giovana Calmon, da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, obtido pelo O Bastidor. O documento reproduz trechos da representação da PF, baseada em delações de executivos da Americanas, documentos internos, e-mails e mensagens de WhatsApp.

O papel dos bancos na fraude

A investigação da PF diferencia a atuação dos bancos. Enquanto Santander e Itaú são apontados por participar da definição do modelo para ocultar operações de risco sacado das auditorias, BTG Pactual, Daycoval e Banco do Brasil aparecem como instituições que ofereceram mecanismos financeiros para sustentar o esquema.

A fraude na Americanas operava em duas frentes: uma contábil e outra financeira. Na frente contábil, a varejista inflava resultados com falsas “VPCs B” (verbas de propaganda cooperada fictícias), reduzindo artificialmente o custo das mercadorias vendidas e melhorando indicadores como margem bruta e lucro operacional.

Como essa “receita falsa” não gerava dinheiro, a frente financeira entrava em ação. A Americanas recorria a bancos para pagar fornecedores, alongar obrigações e fechar balanços sem revelar a real extensão de suas dívidas. É nesse ponto que as operações de risco sacado, “cartão de crédito” e antecipação de VPCs foram utilizadas, ficando registradas como dívida de fornecedores, não como passivo bancário.

As operações de “cartão de crédito” do Banco do Brasil

No Banco do Brasil, a PF destaca operações chamadas internamente de “cartão de crédito”. Apesar do nome, não havia cartão físico. A linha de curtíssimo prazo, com cerca de 30 dias, permitia ao banco pagar despesas ou fornecedores da Americanas, que quitava o valor no mês seguinte. Em 2021, essas operações somaram cerca de R$ 746 milhões.

A decisão registra que essas operações não foram informadas às auditorias externas. No balanço da Americanas, o pagamento aparecia como uma transação comum com fornecedores, mascarando uma dívida financeira com o banco.

Antecipação de VPCs com BTG e Daycoval

BTG Pactual e Daycoval aparecem na engrenagem pela antecipação de VPCs. A Americanas enviava cartas de VPC aos bancos e recebia dinheiro antecipadamente. O problema, a Polícia Federal aponta, é que parte dessas cartas, as “VPCs B”, era fictícia.

Essa operação, que movimentou R$ 1,4 bilhão em 2021, transformou uma fraude contábil (VPCs falsas para inflar resultados) em um instrumento para gerar caixa. A decisão aponta que essas operações foram uma “solução disponibilizada” por BTG Pactual e Daycoval.

Há uma distinção importante: a decisão não afirma que BTG e Daycoval sabiam da falsidade das VPCs, mas que disponibilizaram a estrutura financeira que a Americanas usou, inclusive para cartas que eram fictícias. A apuração busca esclarecer o alcance do conhecimento e participação de cada banco.

Para contextualizar, em 2021, o risco sacado atingiu R$ 14,1 bilhões, as antecipações de VPCs R$ 1,4 bilhão e as operações de “cartão de crédito” R$ 746 milhões. A soma das duas últimas operações, atribuídas aos bancos aqui detalhados, ultrapassa os R$ 2,1 bilhões.

O que dizem os bancos

O Bastidor procurou as assessorias de imprensa dos bancos envolvidos. O Daycoval informou que não comentará o caso. BTG Pactual e Banco do Brasil não responderam até o fechamento da matéria.

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