Crescimento chocante de 82% nas famílias em extrema vulnerabilidade
A consulta de dados recentes revela um aumento alarmante: entre 2022 e 2025, o número de famílias em situação de rua cadastradas em São Paulo saltou 82%, passando de 80.551 para 146.373. Esse crescimento impacta diretamente a vida de milhares e levanta questões sobre o acesso a benefícios e auxílios sociais, especialmente para quem mais precisa de apoio do governo estadual. A realidade contrasta com a promessa eleitoral de “zerar” a população em situação de rua.
Os dados oficiais, extraídos do Plano Plurianual (PPA) 2024-2027 do Estado e baseados no Cadastro Único (CadÚnico) da Fundação Seade, são o principal indicador do Governo de São Paulo para monitorar a vulnerabilidade extrema. Eles evidenciam uma escalada contínua do problema ao longo da atual gestão.
Promessa de campanha não se cumpre
Em 2022, o então candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, prometeu que terminaria seu mandato sem pessoas vivendo nas ruas, com planos de “zerar essa questão” por meio de políticas habitacionais e parcerias. No entanto, os indicadores oficiais mostram que a promessa não foi cumprida, com um crescimento expressivo no número de famílias vivendo sem moradia.
A série histórica do CadÚnico demonstra essa ascensão. Em 2022, antes da posse de Tarcísio, havia 80.551 famílias cadastradas. No primeiro ano de gestão, em 2023, o número subiu para 103.083. Em 2024, alcançou 135.257, e em 2025, chegou a 146.373 famílias. Entre 2023 e 2025, o aumento foi de aproximadamente 42%, indicando uma curva sempre ascendente.
Deterioração das condições e moradias improvisadas
O agravamento da crise social também é visível no Censo da População em Situação de Rua, realizado pela Prefeitura de São Paulo. O levantamento identificou 31.884 pessoas nessa condição apenas na capital paulista, com 19.209 em logradouros públicos e 12.675 em serviços de acolhimento.
Um dado alarmante é o aumento de 330% nos pontos com barracas e moradias improvisadas entre 2019 e 2021, passando de 2.051 para 6.778. A presença dessas estruturas cresceu de 30,1% para 54,5% nos locais onde pessoas vivem nas ruas, sugerindo que a rua deixou de ser uma condição temporária para se tornar um espaço permanente de moradia para muitos.
Crise se espalha pela capital e interior
A concentração do problema é mais intensa na região central de São Paulo. A Subprefeitura da Sé, por exemplo, reunia 12.851 pessoas, o que representa 40,3% de toda a população em situação de rua da capital.
Outras áreas com alta concentração incluem:
- Mooca (5.811 pessoas)
- Vila Maria–Vila Guilherme (1.238 pessoas)
- Santana–Tucuruvi (1.232 pessoas)
No conjunto do estado, 74,1% das famílias cadastradas em situação de rua estão na Região Metropolitana de São Paulo, totalizando 108.572 famílias. Contudo, a crise da extrema pobreza se expande, atingindo grandes centros econômicos como:
- Campinas (2.821 pessoas)
- Guarulhos (2.782 pessoas)
- Santos (2.214 pessoas)
- Osasco (1.343 pessoas)
- São José dos Campos (1.248 pessoas)
- Sorocaba (1.100 pessoas)
- São Bernardo do Campo (1.051 pessoas)
- Ribeirão Preto (1.014 pessoas)
- Franca (996 pessoas)
Esses dados, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), reforçam o contraste entre as promessas e a realidade atual.
Mudança no perfil da população
O perfil das pessoas em situação de rua também se alterou. Em 2021, 28,6% dos entrevistados afirmaram ter familiares vivendo na mesma condição, um aumento em relação aos 20% registrados dois anos antes. Há um crescimento notável de grupos familiares inteiros vivendo nas ruas da capital.
Além disso, o levantamento aponta para o aprofundamento das desigualdades históricas, com 70,8% da população em situação de rua sendo composta por pessoas pretas e pardas. Quase metade (49,4%) está na faixa etária entre 31 e 49 anos, período considerado economicamente ativo.
Ações emergenciais não resolvem
Em épocas de frio intenso, o Governo do Estado costuma anunciar operações emergenciais de acolhimento. Embora importantes para evitar mortes por hipotermia, os indicadores oficiais mostram que essas iniciativas são insuficientes para conter o avanço da população em situação de rua e para atacar as causas estruturais da exclusão social.
A moradia é reconhecida como um direito social pela Constituição Federal. Quando os indicadores oficiais apontam crescimento contínuo da população vivendo nas ruas, o resultado vai muito além do descumprimento de uma promessa de campanha: ela revela o fracasso de Tarcísio frente às políticas públicas voltadas à garantia de direitos humanos básicos, como moradia, trabalho, renda e proteção social.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
