Recusas do INSS disparam 70% e deixam milhões sem benefício crucial
Milhares de brasileiros que buscam um benefício do INSS estão enfrentando um cenário desafiador. Dados recentes revelam que o número de pedidos negados disparou 70% em um ano, chegando a quase metade do total de solicitações em 2026. Essa mudança impacta diretamente a vida de milhões de segurados, que veem o acesso a auxílios e aposentadorias cada vez mais difícil.
Entre janeiro e maio de 2026, a média mensal de requerimentos rejeitados pelo INSS atingiu 668,6 mil. Isso representa um aumento de cerca de 70% em comparação com o mesmo período do ano anterior, quando 395 mil pedidos eram indeferidos por mês. Este é o maior patamar de negativas desde 2021.
Queda na fila e a polêmica dos indeferimentos
Apesar do aumento nas recusas, a fila do INSS, que já foi um pico histórico de 3,1 milhões de pedidos em fevereiro, caiu para 1,5 milhão em julho. A meta é reduzir ainda mais, chegando a 1,3 milhão até setembro. O Ministério da Previdência entende que “zerar a fila” significa eliminar o estoque de requerimentos com mais de 45 dias, que diminuiu 74%, para 486 mil.
No entanto, essa redução da fila é questionada por especialistas. Diego Cherulli, professor e advogado do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBPS), aponta que a prática não reflete uma resolução estrutural.
Não estamos percebendo a redução da fila do INSS na prática. O que estamos vendo é um aumento sumário nos indeferimentos.
O advogado reforça que o processo é complicado, muitas vezes levando o segurado a entrar com vários pedidos após uma negativa inicial. O Ministério da Previdência, por sua vez, afirma que 48,3% dos pedidos são concluídos dentro do prazo legal de 45 dias, e que houve um aumento expressivo na conclusão de processos, com 1,626 milhão analisados em março.
Histórias de quem tem o pedido negado
A crescente taxa de indeferimentos impacta diretamente a vida de segurados como Cristina Maria da Silva. Ela tentou sete vezes receber a pensão do marido, falecido em 2022, mas teve todos os pedidos negados. As justificativas variaram desde a alegação de que o marido não era segurado – mesmo recebendo auxílio-incapacidade e com 20 anos de contribuição – até divergências de endereço e falta de documentos de união estável.
Outro caso é o do lavrador Francisco Nunes da Silva, de 66 anos, que teve seu Benefício de Prestação Continuada (BPC) recusado por uma falha no sistema de biometria. O INSS alegou falta de comprovação do cadastro biométrico, e o pedido foi considerado desistência após 30 dias, deixando Francisco sem o auxílio essencial para sua saúde.
Recurso e novas solicitações: O que fazer
Servidores do INSS indicam que muitas negativas ocorrem, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, pela falta de registro no Cadastro Único (CadÚnico) ou falha no cadastro biométrico. O INSS informa que segurados com benefício indeferido podem entrar com recurso em até 30 dias ou fazer um novo pedido após 30 dias, exceto para benefícios por incapacidade.
Para acelerar a análise e reduzir a fila, o governo implementou medidas como o pagamento de bônus por produtividade aos servidores e o uso do Atestemed, que permite a concessão de auxílio por incapacidade de forma online. Contudo, o ex-presidente do INSS Leonardo Rolim alerta para o risco de fraudes com a ampliação do Atestemed, que já concedeu 1,364 milhão de benefícios por incapacidade temporária.
BPC: Prazo de 90 dias e a luta pela aposentadoria
Para o BPC, um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2020 fixa o prazo de 90 dias para a concessão. Atualmente, 47% dos pedidos com mais de 45 dias de atraso são de BPC, 33% são por benefício de incapacidade e 13% são aposentadorias.
A empregada doméstica Rosa Maria dos Santos, de 58 anos, exemplifica a insistência necessária. Após 32 anos de contribuição, seu pedido de aposentadoria foi negado em 2024, mesmo com o aplicativo Meu INSS indicando que ela já tinha direito. Somente em janeiro de 2026, após um novo pedido em outubro de 2025, Rosa conseguiu o benefício.
Achei que não ia conseguir mais. A gente tem que insistir, senão não se aposenta.
Ela perdeu os valores retroativos desde a primeira solicitação em setembro de 2024, recebendo apenas a partir de outubro de 2025, conforme o INSS alegou.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
