Milhares de motoristas de app e taxistas veem sonho do carro zero barrado na análise
A esperança de adquirir um carro zero com juros reduzidos pelo programa Move Brasil tem se chocado com a dura realidade da análise de crédito bancária para milhares de motoristas de aplicativo e taxistas. Desde o lançamento em 19 de junho, a procura por financiamento disparou, mas as vendas efetivas nas concessionárias seguem baixas, com a maioria das propostas barradas.
Vendedores relatam que muitos clientes chegam às lojas acreditando que o financiamento já está garantido. No entanto, bancos têm rejeitado uma parcela significativa das propostas, gerando frustração tanto para consumidores quanto para os próprios lojistas.
Expectativas vs. realidade: A maioria dos pedidos é negada
O desafio central do Move Brasil, na sua primeira semana, é alinhar as expectativas dos consumidores com as regras de financiamento. Concessionárias na Grande São Paulo, por exemplo, registraram 91 propostas de financiamento em um único dia. Desse total, apenas seis foram aprovadas até o momento do levantamento, o que representa uma taxa de rejeição de aproximadamente 93%.
Em dias normais, a mesma rede de concessionárias recebe cerca de 20 pedidos de análise de crédito, com aprovação próxima a 50%. Leandro Schuber, diretor de oito concessionárias Nissan, descreve que a alta demanda veio de muita gente desinformada.
Muitos consumidores confundiram o pré-cadastro no portal do governo com a aprovação automática. Outros esperavam obter crédito mesmo negativados ou ter acesso à entrada zero e parcelamento em até 72 meses sem restrições. Há casos, inclusive, de pessoas que nem sequer pertenciam ao público-alvo do programa (taxistas ou motoristas de aplicativo).
O diretor acrescenta que alguns clientes buscavam apenas a aprovação bancária, sem real interesse no veículo, para depois negociar preços entre diferentes marcas. O volume de atendimentos específicos do programa também desviou o foco dos vendedores, afetando as vendas para clientes do mercado convencional, pessoas com deficiência (PCD) e seminovos.
Otimismo cauteloso e a adesão dos bancos
Apesar dos desafios iniciais, algumas concessionárias veem o programa com mais otimismo. Na Honda Flora Motors, o movimento nas lojas aumentou, principalmente para esclarecimento de dúvidas. O diretor Sergio Roveri afirma que o atendimento tem sido mais consultivo, focando primeiro no entendimento dos veículos elegíveis e depois no financiamento.
Empresas como BYD e Toyota também registraram aumento na procura. A BYD atendeu mais de 14,5 mil taxistas e motoristas de aplicativo no primeiro dia, com filas em diversas unidades. A Toyota teve um volume de solicitações três vezes superior ao habitual.
A adesão dos bancos, porém, ocorre em ritmos diferentes. Enquanto Sicredi e Sicoob confirmaram participação, grandes instituições como Itaú e Bradesco optaram por não integrar a linha de crédito. O Santander está se preparando para iniciar a operação.
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) apoia o programa e trabalha com o governo para seu funcionamento, ressaltando que ajustes operacionais são comuns nos primeiros dias. A concessão de crédito continua sujeita às análises de risco e políticas internas de cada instituição.
Por que o crédito permanece restrito
Ricardo Thomaziello, diretor de análise da Serasa Experian, explica que a dificuldade de aprovação para motoristas de aplicativo e taxistas se deve, em parte, à falta de vínculos tradicionais de emprego. Isso limita as informações disponíveis para os bancos avaliarem a capacidade de pagamento.
O programa Move Brasil visa reduzir essa assimetria de informações, mas o cenário macroeconômico atual, marcado por juros elevados e alta inadimplência, mantém as instituições financeiras mais cautelosas. O score de crédito e o histórico de mercado são cruciais, mas cada banco combina esses dados com critérios próprios de risco.
Isso significa que uma mesma pessoa pode ter o financiamento aprovado em um banco e recusado em outro, dependendo do apetite ao risco da instituição. O programa está em fase inicial e a expectativa é que, com a familiarização de bancos e consumidores com as regras, os resultados se tornem mais claros.
Como funciona o programa Move Brasil
O financiamento do Move Brasil é voltado para taxistas registrados e ativos, cooperativas de táxi e motoristas de aplicativos com cadastro ativo há pelo menos 12 meses e cem corridas no período. A validação dos motoristas de aplicativo é feita pelas plataformas, e a dos taxistas, via Receita Federal e gov.br.
Os veículos elegíveis são modelos flex, híbridos flex, elétricos e movidos a etanol, com valor máximo de R$ 150 mil. Itens de segurança e financiamento de seguro não entram no cálculo desse limite. Mulheres contam com a vantagem de acessórios de segurança também não impactarem no limite de valor.
- Cadastro: Acessar o portal gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/move-brasil e autorizar uso de dados.
- Confirmação: A resposta da análise é enviada pela caixa postal do portal gov.br.
- Escolha do veículo: Com o cadastro aprovado, o motorista escolhe um dos veículos que se enquadram no programa em uma concessionária.
- Contratação: O banco escolhido realiza a análise de crédito final e, se aprovada, conclui a contratação.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
