Proteção financeira e apoio essencial para filhos de vítimas
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) já iniciou a análise de uma nova pensão especial, um benefício crucial destinado a filhos e dependentes de mulheres vítimas de feminicídio. Com a publicação da Portaria nº 1.058, de 28 de maio de 2026, a medida representa um passo importante para centenas de famílias que enfrentam, além da perda irreparável, graves traumas emocionais e impactos financeiros.
As análises dos requerimentos começaram em 29 de maio e, até o momento, mais de 300 pedidos já foram recebidos em todo o país. O INSS tem a expectativa de processar todo o estoque dessas solicitações ao longo do mês de junho. Os benefícios deferidos serão pagos de forma retroativa, a partir da data de cada solicitação.
Impacto devastador e urgência de suporte
A tragédia do feminicídio deixa um rastro de dor e vulnerabilidade. Em Alagoas, por exemplo, estima-se que em dois anos e meio mais de uma centena de crianças e adolescentes tenham se tornado órfãos em decorrência desses crimes. Somente em 2025, o estado registrou 29 feminicídios, conforme dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/AL).
Um caso que ilustra essa dor é o da enfermeira Ketyni Maria Gomes da Silva, assassinada por asfixia em Maceió, deixando dois filhos, um de 3 e outro de 12 anos. A prima da vítima, Mayra Carmo, compartilhou a profundidade do luto.
“Todo mundo segue muito abalado com tudo que aconteceu, ninguém na verdade acredita que isso tenha acontecido. Na nossa cabeça, em algum momento, ela vai chegar do trabalho. Tudo sobre ela permanece vivo dentro da gente, o sorriso, a fala, nossa família segue sangrando dia após dia. É uma saudade sem fim e choros todos os dias. A ficha ainda não caiu! Nada é mais como antes.”
Ainda segundo Mayra Carmo, em depoimento divulgado por veículos como a Gazeta de Alagoas, a prisão do agressor, por mais que traga alguma justiça, não diminui os danos causados.
“Ele estando preso vai continuar seguindo a vida dele, e infelizmente se ele chegar a pegar a pena máxima ainda não será o suficiente para diminuir os danos que ele causou.”
Os filhos de Ketyni, como muitos outros, estão profundamente traumatizados e recebem acompanhamento psicológico. “O mais novo só dormia mexendo no cabelo da mamãe dele e sempre pergunta e chora por ela. Já o mais velho tem muita revolta sobre tudo o que aconteceu e sente muita falta da mãe e de como ela cuidava dele”, relata a prima.
Apoio psicológico: além do benefício financeiro
Para além do suporte financeiro, o impacto psicológico nesses órfãos é severo. A psicóloga e especialista em análise do comportamento Amanda Santos ressalta a gravidade da situação.
“Quando falamos sobre os filhos de vítimas de feminicídio, estamos diante de uma das formas mais graves de trauma psicológico infantil e familiar. Essas crianças e adolescentes não perdem apenas a mãe de forma abrupta e violenta, mas também têm sua sensação de segurança, proteção e previsibilidade profundamente abalada.”
A exposição a uma morte violenta pode gerar ansiedade, depressão, medos intensos, culpa, alterações do sono, dificuldades de aprendizado, isolamento social e sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). A psicóloga clínica Karyllane Rodrigues complementa que, muitas vezes, essas crianças já viviam um histórico de violência doméstica.
“O primeiro ângulo a ser visto é que, de forma geral, são crianças ou adolescentes que já estavam vivendo violência antes da perda da mãe, porque o feminicídio é um crime que costuma apresentar sinais prévios.”
As especialistas concordam que, embora seja possível encontrar formas saudáveis de lidar com o luto, as marcas emocionais, sociais e financeiras acompanharão esses jovens por toda a vida. A pensão especial do INSS surge, assim, como um alívio fundamental para mitigar parte dos danos e oferecer um caminho de suporte.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
