INSS: Zelador Desempregado Movimenta R$ 600 Mil em Conta e Levanta Suspeitas de Esquema
Uma investigação sobre a chamada “Farra do INSS” ganhou novos contornos com a descoberta de que a conta bancária de um zelador desempregado, residente no Gama, Distrito Federal, movimentou mais de R$ 600 mil em apenas um mês de 2024. O caso, detalhado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), reforça a suspeita de uso de “laranjas” para ocultar recursos desviados de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social.
As transações foram consideradas incompatíveis com o perfil econômico do titular da conta, indicando possíveis indícios de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. O documento, encaminhado à CPMI do INSS, detalha um padrão de repasses e fracionamentos que dificultam o rastreamento dos valores.
O zelador, procurado pela reportagem, negou conhecimento sobre as movimentações, alegando que pretende registrar um boletim de ocorrência por possível uso indevido de seus dados bancários. As investigações seguem em andamento para desvendar a extensão do esquema.
Movimentação Atípica em Conta Bancária
De acordo com o relatório do Coaf, a conta bancária do zelador registrou a circulação de R$ 610 mil em um período aproximado de um mês. Desse total, R$ 302,4 mil entraram como créditos e R$ 307,9 mil saíram como débitos. O ritmo acelerado e fragmentado das transações acendeu o alerta dos órgãos de controle.
O Coaf considerou as movimentações totalmente incompatíveis com a condição financeira do titular da conta, que é descrito como desempregado. O histórico bancário não condiz com renda formal ou atividade econômica capaz de justificar valores dessa magnitude, segundo o órgão.
Origem dos Recursos: Empresas e Servidores Públicos
Uma parte expressiva dos valores creditados na conta do zelador teve origem em duas empresas: Solution Serviços de Locação e Impacto Serviços de Apoio. Ambas pertencem a Lucineide dos Santos de Oliveira, sócia da Associaçāo dos Aposentados do Brasil (AAB), uma das entidades investigadas por descontos irregulares em benefícios previdenciários. As transferências teriam sido feitas à vista, o que reforça a suspeita de pulverização rápida dos valores.
Além das empresas, a conta recebeu transferências diretas de pessoas físicas. Um bombeiro militar do Distrito Federal realizou um Pix de R$ 70 mil, enquanto outro servidor público enviou R$ 38 mil, divididos em duas operações. As circunstâncias desses repasses ainda estão sendo apuradas.
Lavagem de Dinheiro e Uso de Laranjas em Evidência
O fracionamento das transações chamou a atenção do Coaf. Um exemplo citado no relatório é o de Dennys Bezerra, que realizou 14 transferências totalizando R$ 63.627,00 em um mês. O fracionamento é uma estratégia comum para evitar alertas automáticos dos sistemas bancários. A rapidez com que os valores saíam da conta, muitas vezes no mesmo dia do crédito, também é considerada suspeita, dificultando a identificação do destino final dos recursos.
Parte dos valores creditados foi transferida para uma segunda conta em nome do próprio zelador, onde circularam mais de R$ 150 mil. Essa etapa reforça a hipótese de uso indevido de dados pessoais. Outras transferências relevantes incluem R$ 93,2 mil para Dennys Bezerra e R$ 27,2 mil para uma enfermeira via Pix, além de valores fracionados enviados a outras contrapartes.
Associação dos Aposentados do Brasil Sob Investigação
A Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) está no foco da CPMI do INSS por seu envolvimento em um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em benefícios previdenciários. Relatórios apontam conexões financeiras e administrativas entre a AAB e a Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer), incluindo compartilhamento de endereço e contatos.
Empresas ligadas a Lucineide dos Santos, sócia da AAB, também são investigadas. A Impacto Serviços de Apoio, por exemplo, realizou uma transferência de R$ 100 mil para a conta do lobista Danilo Berndt Trento, utilizando o BK Bank, instituição sob investigação por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. A Operação Sem Desconto, que combate esses esquemas, já cumpriu mandados de busca e apreensão e prisões em diversos estados, visando estelionato previdenciário, organização criminosa e lavagem de dinheiro.