Empréstimo consignado CLT multiplica dívidas para milhões de brasileiros
Dinheiro liberado para trabalhadores com carteira assinada, o Crédito do Trabalhador, que usa o FGTS como garantia, completa um ano e já mostra um cenário desafiador. Uma pesquisa recente da Serasa Experian revela que 74% dos brasileiros que aderiram a essa modalidade de empréstimo consignado já possuem dois ou mais contratos ativos. Essa alta frequência de endividamento levanta um alerta sobre o impacto imediato no planejamento financeiro de milhões de famílias.
As regras do programa permitem que o trabalhador contrate até nove empréstimos, comprometendo até 35% do salário-base. Entre aqueles que optaram por um segundo empréstimo, 29% enfrentam taxas de juros mais elevadas do que as pagas na operação inicial, segundo o levantamento que analisou quase 200 mil contratos de consignado privado.
A pesquisa também indicou que mais da metade, 54,6%, dos consumidores com múltiplos empréstimos buscou crédito em diferentes bancos, evidenciando uma diversificação nas instituições financeiras utilizadas.
O estudo aponta ainda que a maior parte dos novos contratos, 44% do total, foi para operações de menor valor, até R$ 1.500. Nessa faixa, a taxa média mensal de juros foi 7% superior às registradas em empréstimos de valores maiores e prazos mais longos. Em contraste, operações acima de R$ 20 mil representaram apenas 1,9% do total e apresentaram juros médios mais baixos.
O crescimento do Crédito do Trabalhador coincide com sinais de maior necessidade de crédito entre os participantes. O estudo mostra que 68% tiveram entre duas e cinco consultas ao CPF nos últimos seis meses, e 69% possuem algum tipo de restrição financeira ativa.
Falta de informação aumenta o risco de endividamento
Apesar da facilidade de acesso ao crédito, a conscientização financeira não acompanhou o ritmo. Uma pesquisa da Abefin (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira), em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas, aponta que 83% dos trabalhadores que contrataram o Crédito do Trabalhador não sabem o valor exato dos juros que estão pagando.
Os dados são alarmantes: 69% dos entrevistados não analisaram o impacto da dívida no orçamento familiar, 54% não receberam qualquer orientação antes de assumir o compromisso e 36% utilizaram o consignado para quitar outras dívidas, como cartão de crédito e cheque especial. Mesmo entre aqueles que apenas simularam a contratação, 58% não buscaram ou pretendem buscar orientação sobre educação financeira.
"Facilitar a contratação sem ampliar a educação financeira pode transformar uma solução momentânea em um ciclo permanente de endividamento", alerta Reinaldo Domingos, presidente da Abefin.
Ele reforça que muitos trabalhadores focam apenas no valor da parcela mensal, ignorando o custo total do financiamento. Essa prática pode criar uma falsa sensação de segurança e comprometer a renda por muitos anos, transformando o crédito em uma armadilha em vez de uma ferramenta de planejamento.
Entenda o crédito do trabalhador e como funciona
O Crédito do Trabalhador é um modelo de empréstimo consignado que dispensa a necessidade de convênio entre empresa e banco. As parcelas são descontadas diretamente do salário, e o saldo do FGTS funciona como garantia de pagamento. Isso reduz o risco de inadimplência para os bancos, permitindo a oferta de taxas de juros mais baixas que as do mercado tradicional.
Podem solicitar este novo consignado trabalhadores com carteira assinada, incluindo empregados domésticos, rurais e Microempreendedores Individuais (MEIs). O trabalhador oferece como garantia até 10% do saldo do FGTS e toda a sua multa rescisória em caso de demissão sem justa causa (40% do valor do saldo). Mesmo quem optou pelo saque-aniversário do FGTS pode contratar o empréstimo, mantendo ambas as modalidades ativas.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
