PF revela esquema milionário e pressão política no caso INSS
Uma nova fase da investigação sobre fraudes no INSS revela um esquema de pagamentos suspeitos e suposta chantagem política. A Polícia Federal (PF) apurou que a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer) teria usado dinheiro e ameaças para pressionar um deputado federal, após a descoberta de seis pagamentos de R$ 10 mil à filha do parlamentar. A situação alerta para a complexidade das investigações que afetam a gestão de benefícios e a liberação de recursos, com desdobramentos diretos na confiança pública.
O centro da apuração envolve Carlos Lopes, presidente da Conafer, que é acusado pela Polícia Federal de tentar chantagear o deputado federal Eros Biondini (PL-MG). O plano, montado no fim de 2025, teria surgido após Biondini apoiar a CPI mista do INSS e pedir uma investigação sobre a execução de uma emenda de R$ 5 milhões que ele havia direcionado ao Instituto Terra e Trabalho (ITT), uma entidade ligada à Conafer.
Pagamentos suspeitos à filha do deputado
A ferramenta de chantagem, conforme a PF, seriam pagamentos recebidos por Chiara Biondini, filha do deputado. Ela foi contratada pela Conafer em 2021, aos 19 anos, e teria recebido ao menos seis pagamentos de R$ 10 mil, totalizando R$ 60 mil. Em 2023, Chiara assumiu o mandato de deputada estadual em Minas Gerais.
Diálogos interceptados pela PF revelam que Vinícius Ramos, advogado da Conafer, teria afirmado que Chiara recebia os valores “sem fazer nada”. A corporação classificou os valores como “salários fictícios”.
“Carlos e Vinícius utilizaram os comprovantes dos pagamentos feitos pela Conafer a Chiara como instrumento de chantagem política contra o deputado Eros Biondini.”
Essa declaração da Polícia Federal reforça a tese de que os pagamentos eram indevidos e serviram como moeda de troca. A ameaça de divulgar esses pagamentos foi, segundo a PF, repassada ao deputado Eros Biondini por meio do deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG).
Líder do esquema admitiu corrupção, diz PF
Em uma conversa, o presidente Carlos Lopes teria instruído Vinícius a não divulgar os pagamentos a Chiara, “para não cair para cima da Conafer pagamento de propina”. Para a Polícia Federal, essa fala indica que Lopes, apontado como “líder do esquema”, admitiu que os pagamentos à filha do deputado eram “atos de corrupção”.
Os depoimentos de Eros Biondini e Chiara à PF indicam que ela foi contratada após um processo seletivo. Chiara relatou que solicitava tarefas, mas era orientada a aguardar, o que lhe causava “forte incômodo e insatisfação”. O deputado federal afirmou ter indicado emendas ao ITT por orientação de Euclydes, sem saber da ligação com a Conafer.
Indiciamentos e outras acusações
O relatório da PF concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, que investiga descontos indevidos no INSS, com 48 indiciamentos. Carlos Lopes e Vinícius Ramos estão entre os indiciados. Eros Biondini e sua filha, Chiara, não figuram na lista de indiciados.
O deputado Euclydes Pettersen, que teria sido usado para intermediar a chantagem, foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A corporação aponta que ele teria se beneficiado de pelo menos R$ 14,7 milhões em supostas propinas mensais, fracionadas por meio de contas de lotéricos e empresas de fachada.
Em nota conjunta, Eros e Chiara Biondini afirmaram ter colaborado com a PF e que o relatório não identificou “qualquer ato irregular e muito menos atitude ilícita dos dois congressistas”. A Conafer, por sua vez, respeita o trabalho da PF, mas ressaltou que o indiciamento é uma fase investigativa e não representa denúncia ou condenação judicial.
Euclydes Pettersen negou “qualquer participação nos fatos apurados”, indicando que sua defesa irá confrontar a versão da investigação.

Davi Soares é especialista em benefícios sociais, com ampla experiência na análise de programas como Bolsa Família, CadÚnico, BPC e auxílios governamentais.
